segunda-feira, junho 05, 2006

Ele sabe

Ele sempre foi o irmão preferido, aquele que gosto de ficar não porque é família, mas porque é o amigo que conta ótimas histórias e as piadas boas, porque ele torce para o Guarani e também comemora quando o São Paulo é campeão (o Guarani é o time do interior, o do coração, aquele que nunca ganha), é ele que chora feito um menino grande quando está emocionado, gosto dele porque podemos discutir sobre tudo e também porque às vezes ele não é politicamente correto.
Ele dá uns conselhos e pede outros, quer emagrecer e sempre está disposto a tomar uma cerveja ou a assar uma carninha. E além de tudo isso, ele é pai da minha sobrinha e do menino mais lindo do mundotodo.
Ele é o irmão que ia para o bar na "escuridão da noite, iluminado apenas pela lua cheia" porque as mimadas e relapsas irmãzinhas dele tinham perdido as chupetas e choravam choravam choravam até que alguém as encontrasse (ou comprasse novas).
Era ele que estava lá, chorando de felicidade quando, depois de duas reprovações (isso fica entre a gente, rs), eu finalmente passei na prova de motorista.
Não temos apenas afinidades, ele tem uns gostos musicais estranhos e sempre somos obrigadas a ouvir alguma moda de viola ou rap que ele acha bonito, "mas tem que prestar atenção" senão ele fica bravo.
Ele é o pai que me incentiva quando meu pai diz que eu devo desistir.
Sempre temi que ele não aceitasse minha sexualidade, que talvez por querer proteger seus filhos os afastasse de mim, e apesar do temor queria contar que estava apaixonada e que finalmente encontrara o grande amor da minha vida, que a amava e estou muito feliz, queria dizer tudo isso pois como diz a Milly Lacombe essa é a minha verdade . Não contei, é difícil esconder as coisas que sentimos, porém é complicado contar e arcar com as conseqüências nem sempre desejadas.
Dia desses fui ao seu trabalho levar uns salgados e um CD do Teodoro e Sampaio de presente. O encontrei preocupado, logo pediu meu conselho sobre um negócio que ia fazer, dei a minha opinião e ela discordava da dele, estavámos conversando e ficamos sozinhos sentados frente a frente.
Ele parou o que estava falando, olhou com carinho e me disse:

- Já que estamos conversando assim, de irmão pra irmão, eu tenho que te falar uma coisa.

Gelei... fiquei branca, meu coração acelerou e sim, nós dois sabíamos do que ele estava falando.

- Acho que sei o que você quer me dizer, mas tem certeza que quer falar disso, aqui... agora?

Ele apenas disse:

- Eu sei Dani, sei faz tempo, e eu te amo assim, e estou aqui pra te dar apoio.

Começamos a chorar os dois ali abraçados, ele fez questão de me falar que estava chorando não por estar triste, mas porque ele chora (o choro, como diz minha médica das gotinhas, é ótimo, se não resolve pelo menos simplifica as coisas, a gente fica desarmado quando chora feito criança pedindo colo).
E foi assim, simples desse jeito, que aconteceu, a Dani não estava e fez falta, se o roteiro da vida fosse coerente e justo, se a vida tivesse que ter verossimilhança: ela estaria.
A vida nos surpreende e dessa vez a surpresa foi muito boa.
Ele sabe, ele sempre soube... (quem sabe tenha descoberto no dia em que me pegou no colo) que me ama e que sempre vai me amar.